quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

4 de dezembro



Hoje vamos de Clarice Lispector,
Em “A descoberta do mundo” no dia 21 de dezembro de 1968 ela escreve:

A VIRGEM EM TODAS AS MULHERES
Toda mulher, ao saber que está grávida, leva a mão à garganta: ela sabe que dará à luz um ser que seguirá forçosamente o caminho de Cristo, caindo na sua via muitas vezes sob o peso da cruz. Não há como escapar.

Clarice tem destas coisas, ela diz, não manda recados.

Marias e Josés que somos, sabemos disto também, mas mesmo assim temos nossos meninos e meninas e nos maravilhamos a cada um que chega.

3 de dezembro

Manoel de Barros, poeta brasileiro, me dá de presente esta frase do prefácio da sua Antologia e não era sobre o Natal que ele falava.

“Distâncias somam a gente para menos”

Quem já provou em alguma época da vida a distância de alguém, ou da terra onde largou o umbigo, sabe bem como ouvir esta frase.

Eu a escolhi para colocar junto ao presépio da querida Júlia.

No presépio de Júlia as figuras são do Panamá e a casinha, que também é chamada de lapinha, está forrada de folhas secas das árvores por onde hoje Júlia caminha.




O Presépio aqui torce a frase do poeta: diminui distâncias e soma as gentes para mais.

2 de dezembro

Como criança esquecida, mas apressada, abri várias janelinhas do calendário de uma só vez.

2 de dezembro

São Francisco de Assis e Santo Antônio,são para mim, os dois santos mais simpáticos da Igreja Católica, com todo o respeito aos outros. Parece que estão sempre dispostos a uma conversinha, daquelas de pai para filho.
“Olha São Chico, não sei o que faço com...., me ajuda vai... e lá vem ele com aquela carinha simpática de quem vai fazer tudo para resolver ou pelo menos dar um colinho.

Imagino-o em Assis, uma das cidades onde Deus está presente com certeza, sentado com seus amigos pensando em uma forma de celebrar o nascimento do Menino da forma como de fato aconteceu: a grandeza na simplicidade.

E assim como não quer nada, em 1223 pediu permissão ao Papa e, às imagens de Nossa Senhora, São José, e do menino na manjedoura cheia de palha; juntou um boi e um jumento e outros animais vivos. Celebrou assim uma Missa de Natal.

Os amigos do Sótão e do Porão sabem da minha paixão por eles e sempre me mandam algum de presente, físico ou virtual.

Uma amiga querida, que pleonasmo, aqui só entram as queridas, me mandou vários e escolhi este.

Obrigada Margareth.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Começa dezembro e me dá certa agonia: pelo ano estar a terminar, pelo balanço inevitável do que fui e do que serei, pelas providências a tomar e às vezes são tantas que fico bêbada, pela festa a preparar e porque daqui a pouco será Natal.

As famílias crescem e se misturam, umas comem peru, outras bacalhau, outras não comem nada.

Em algumas se trocam presentes, em outras, eles são só para as crianças e, em outras ainda é um Feliz Natal com aquele amargo que acompanha a miséria.


Natal só é fácil quando se é criança, e assim mesmo nem sempre, depois é tarefa difícil de vencer e confesso que, o mês de dezembro vem se tornando a cada ano mais difícil.


Em certos anos gostaria que ao 30 de novembro se seguisse o 6 de janeiro. O ano já teria terminado e levado embora todas as convenções que as datas exigem.

Há uns anos atrás, num mês de junho, tive vontade de presentear a todos, como se faz no Natal; estava feliz e tinha entrado um dinheirinho extra, mas, por medo de me acharem louca, acabei numa festa junina, que detesto. Quando entrou dezembro já não estava tão feliz, o dinheiro tinha se perdido com outras obrigações e o Natal me deixou triste e endividada.

Entre compras e mais compras, almoços, jantares, amigos ocultos e uma comilança sem fim há duas coisas que ainda me comovem em dezembro: o Calendário do Advento e o Presépio. Representam a expectativa de alguma coisa que vai acontecer e a esperança do nascimento, nada nem ninguém nasce sem esperança e expectativa.

Em cada Sótão e cada Porão temos guardados nossos Calendários, Presépios, Árvores, Melancolias, Alegrias, Tristezas, Injustiças e tudo o que nos foi dado a guardar.

Já estou no primeiro domingo de dezembro e ainda não consegui começar o que me propus no fim de novembro – fazer aqui um Calendário do Advento, aquele cartão, mural, coroa de velas, ou seja lá que forma tenha onde os dias de dezembro, de 1 a 25 são marcados com uma imagem, um texto, um doce, ou o que mais a imaginação inventar.


Pois bem, estou 5 dias atrasadas, mas esta é a vida real, quando vemos já passaram 5 horas, 5 dias, 5 meses e aí é Natal. Mas mesmo assim vou tentar fazer este calendário funcionar.

Já o Presépio ocupa na minha vida um lugar especial.

Sou apaixonada por esta representação: os pais adorando o filho que acaba de nascer, seja ele filho de reis ou de escravos, o olhar é o mesmo sobre aquele pequeno – a família, sagrada sempre, independente da forma que evoluiu daqueles dias para os atuais.


E de quebra, um anjo protegendo os 3.




O meu presente de Natal para quem passar por aqui será o calendário e a cada dia uma imagem de presépio, às vezes atrasada em 1 ou 2 dias, não importa, quero manter a expectativa no ar.

Vamos lá então:

1 DE DEZEMBRO:

O Calendário do Advento vem dos Luteranos alemães, que, ao menos até o começo do século XIX, faziam a contagem regressiva para o dia do Advento.
Freqüentemente, a contagem era feita com um simples risco de giz na porta a cada dia, começando em primeiro de dezembro. Algumas famílias tinha meios mais elaborados de marcar os dias, como acender uma nova vela (talvez a gênese das atuais coroas do Advento) ou pendurando um santinho na parede a cada dia.
As velas também podiam ser colocadas em uma estrutura, que era conhecida como "relógio do Advento". Em dezembro de 1839 a primeira coroa do Advento pública foi pendurada na capela da Ruhes Haus (um orfanato) em Hamburgo, apesar de ter sido uma prática familiar em regiões de língua germânica da Europa desde o século XVII.
O primeiro calendário do Advento conhecido foi manufaturado em 1851.


Chata esta explicação... prefiro pensar que cada dia terá a me esperar uma surpresinha ou uma pequena vela que acesa vai me fazer sorrir levemente, nem é bem um sorriso, é quase um suspiro, uma esperançazinha antiga que sem querer vai tomando a gente.


E como aqui não pode faltar poesia, começo com Manuel Bandeira, podem chorar à vontade



Versos de Natal

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A autora fala

Com a palavra a autora e responsável pelas lembranças:

Ai Martha, quase chorei. Que lindo!
Obrigada pelo carinho...
bjss
Dailza

Não Dailza, nós é que agradecemos.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Achei que os comentários ao Post do Sonho valiam outro post.
Alguém duvida do poder das lembranças?


Como alguém já disse - John Lennon? - a vida é o que acontece enquanto fazemos planos, e sem as coisas pequenas, como chegaremos às grandes?

Aí vão eles:

Preciso dizer que os olhos encheram de lágrimas? Acho que não né, meio óbvio!!!

Mais uma vez eu digo a expressão "Old School" que se for lida devagar reparem que vira "Old is cool"

A casa de Angra é imortal, cheia de lembranças, churrascos, almocos, jantares, filmes alugados na locadora com gramado no telhado,"O brojo agora é a kilo", "O brojo agora é churraskilo", O velho do Restaurante Oceano que "flertava" com a vovó, muito misto quente da sanduicheira, JERÔNIMOOOOO, Mico torrado no poste, morcego invadindo a casa na madrugada, Espanadrapos, Quioksi, Repceção, Show do Mágico Peixoto, Bingo com prêmio de Nado livre até a Ilha Grande, tardes intermináveis na piscina e muitos mas muitos papos-furados e conversas na varanda deliciosa.

No clima do show do Paul lembrei da música dos beatles "In my life" que diz os seguintes versos:

"There are places I remember all my life,
Though some have changed,
Some forever not for better,
Some have gone and some remain."

Amei o texto. Ela conseguiu retratar a casa sem nunca ter ido. Incrível.

Beijos, Pedro

O que o Pedro escreveu, torna qualquer outro comentário desnecessário.
Bjs, Beto

Quem queria estar lá agora põe o dedo aqui que já vai fecharrrrrrrrrrrrrrrrrr

love u all, Camilla


Em 25 de novembro de 2010 05:31, Fernando Scodro escreveu:

acho que precisamos sim adicionar a brava reação do Pedro ao morcego...MAINAAAAA!!!!




Hoje é Thanksgiving (o meu primeiro em um lugar que não é meu "home" but is the the place I live now). Ler o texto e depois receber vários comentários que fazem total sentindo na minha vida, realmente me fez perceber (como os americanos dizem) "what I am thankful for"
Muito obrigada por todas as memórias que a casa de Angra só deu um empurrãozinho para acontecer. Se hoje eu consigo me apresentar para as novas pessoas que conheço todos os dias, muito é por causa de vocês!
Mesmo o Rio estando confuso, eu desejo um Happy Thanksgiving para todos!
E só para adicionar na lista do Pedro: "pim pim pim pirim faça uma onda forte pra mim....... TA NO FORNOOOOOO"
Beijos e MUITAS saudades!
Sylvia

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Casa e o Mar ( o sonho da Martha)

Conhecer a Dailza numa oficina literária foi uma das boas coisas que aconteceram este ano. Dailza tem talento – ficou em terceiro lugar nos concurso de contos da Off- FLIP, é organizada – toma conta do blog dos alunos da oficina, é mãe e avó – cria filhos e netos com um amor sem fim, e é minha nova amiga – daquelas que logo desconfiamos que vieram para ficar.
Num dos exercícios da oficina Dailza escreveu um mini conto sobre um sonho que lhe contei, aliás, eu não contei o sonho, simplesmente disse que quando ia para a minha casa na praia eu sonhava que o mar entrava dentro dela, somente isto.
Dailza, com seus olhos, ouvidos e alma de escritora, contou sem querer a história da casa muito melhor do que eu, a dona da história, teria feito.
Em 142 palavras Dailza revelou uma casa onde família, amigos, vizinhos, viveram e deixaram muitas recordações.
A vida mudou, os pequenos cresceram, os mais velhos partiram, os vizinhos são outros, mas a casa continua lá, pronta para nos receber. É para lá que vamos quando queremos tirar o sapato, deixar marcas na areia e entrar no mar para sentir o sal na boca e na pele.
A casa é azul, azul da cor do mar.


A Casa e O Mar
(Sonho de Martha)

Ela era uma casa simpática. Ficava à beira d’água, sempre enamorada do mar. Durante muitos verões, foi o paraíso das crianças que, logo de manhãzinha, corriam pela areia até chegar à barra de espuma macia e molhar os pés.
A casa não era grande nem pequena. Tinha o tamanho ideal para guardar memórias, testemunhar gerações. Viu quando castelos de areia deram lugar às pranchas que cortavam as águas. Assistiu primeiros beijos roubados em noite de lua cheia.
Mas, nada dura além de seu destino. Um dia, o mar cansado da rotina, resolveu que seria bom quebrar suas ondas mais além. O mar queria crescer, ganhar novos espaços. E assim foi: começou pela areia branca, ganhou as calçadas até chegar à varanda. Invadiu as salas, os quartos e quando deu-se conta, a casa que antes olhava o mar, agora vivia dentro dele.

Dailza
11/2010