segunda-feira, 21 de março de 2011

Luares

Admiro os colecionadores. Passar a vida atrás de algo demanda esforço, disciplina e às vezes muito dinheiro.

Lembro sempre do José Mindlin contando como formou sua biblioteca, sonho em conhecer, ou as casas de Neruda com suas coleções malucas, mas uma especialmente interessante – sereias, ou figuras femininas que iam na proa dos navios para afastar os monstros marítimos, ou de ir ao Museu Nissim – Camondo em Paris, onde Monsieur Camondo decorou sua casa com móveis e objetos decorativos franceses do século XVIII e levou mais ou menos 20 anos para juntar duas cômodas francesas, idênticas, decoradas com placas de porcelanas de Sèvres. Mr. Frick em New York colecionou arte, da boa, e acordava no meio da madrugada para admirá-las em silêncio. Graças a seu espírito de mecenas podemos sentar na mesma sala e mergulhar naquela beleza.

Algumas coleções não custam nada, são conchinhas do mar, tubinhos de areia, folhas secas, que à medida que cruzam o caminho estende-se a mão e pega-se.

Não sei se a lua cheia desta semana está influenciando os espíritos, mas lendo a resenha de um livro no jornal, imaginei que o autor colecionava luares.

Este foi meu jeito romântico de entender o assunto do livro.

O título: Nocturne: A Journey in Search of Moonlight.

O autor, James Attlee, num passeio à noite na costa da Inglaterra viu-se de repente tomado pela imagem da lua nascendo, em suas palavras: “the rim of the harvest moon emerging from the sea, a monstrous, swollen aparition.”.

Como acontece com todos aqueles que, tocados por um acontecimento extraordinário, neste caso a lua, ou melhor, o luar, tudo passou a ter outra dimensão na vida de Attlee.

Começou pela observação do luar a partir do seu quintal, da sua rua da sua cidade e assim foi começando sua coleção. Mas as luzes das grandes cidades lhe roubavam os melhores momentos, e como numa grande coincidência, lhe caiu nas mãos um telescópio; depois uma ida a uma instalação de arte, onde o artista mostrava o resultado da transformação de notas da Sonata Moonlight de Beethoven em código Morse, que eram enviadas para a lua e, ao tocarem a superfície lunar eram de novo reenviadas para a terra. Transformadas pela viagem se convertiam em notas novamente. Para Attlee este som é mais adequado aos ouvidos do século XXI. Eu e o crítico discordamos, mas isto não invalida a coleção.

Attlee vai levando os leitores por passeios intermináveis em busca de luares: no Japão, no Arizona, nas observações sobre o luar de Goethe em Nápoles e de Dickens no Vesúvio, nas telas de Whistler onde o pintor, na série "Noturnos", usava tantas tintas e tantas cores tão diluídas para chegar na “luz” desejada que a tela precisava ser pintada deitada no chão para não escorrer.

Fiquei com vontade de procurar a minha coleção de luares, sim devo ter uma.
Como é algo que não dá para pegar e guardar numa caixa, numa gaveta ou numa pasta, vou ao Sótão e lá acharei com certeza.

E lá estavam...

O luar que iluminava, mas não vencia a noite em que tive a notícia mais triste da minha vida.

Aquele luar que iluminando uma pedrinha mínima no chão me fez levantar a cabeça para procurar de onde vinha a luz e me fez ouvir:
a lua nasce por detrás daquela mata
até parece um sol de prata
prateando a escuridão.
Para fazer uma música desta precisa ter Paixão no nome.

Também apareceu aquele da noite fria de inverno, noite de Santo Antônio, onde um olhar “acendia a fogueira no meu coração”.

Aquele luar de uma serenata: “A lua é um tiro ao alvo e as estrelas, bala e bala”.

E foram muitos e tantos que a sala antes escura agora brilha calma e prateada. Beethoven bem baixinho me ajuda a sonhar.

P.S. Este post vai sem foto, para que cada um se sinta tomado pelo seu luar.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Janelas do Mundo




Jardins e livros são das coisas que mais gosto na vida, com eles por perto tenho a sensação de estar sempre em casa.

Uma vez fiquei sem fôlego, totalmente tomada por uma lembrança de infância ao ver uma enorme magnólia em Washington. A minha lembrança não era da árvore, e sim do perfume da flor. Na mesma viagem encontrei uma caixa de cartões com fotos de magnólias, comprei três.

Uma outra vez, em Londres, vi pela primeira vez na vida o florescer das cerejeiras. Não tinha nenhuma lembrança desta árvore, mas devo ter tirado umas 50 fotos das árvores na tentativa de manter comigo aquela beleza toda.

Com os livros é o mesmo. Na biblioteca pública de Boston fui procurar no acervo, Jorge Amado, na Poets House em NY achei Canção do Exílio traduzido para inglês. E nestas vezes como em outras me aquietei, estava em casa.

E sempre lembro de Borges: "Eu semprei imaginei o Paraíso como uma espécie de biblioteca".

Eu adicionaria: no meio de um jardim.

Hoje pensando em jardins e livros lembrei de um um recorte de jornal – New York Times.

Fui no Sótão e lá estava dentro da pasta azul.





WINDOWS ON THE WORLD

Maria Kodama and Matteo Pericoli
Mr. Borges’s Garden

Matteo Pericoli’s drawing of the view from Jorge Luis Borges home in Buenos Aires.
A certain house in the Buenos Aires neighbourhood of Recoleta has a window that is doubly privileged. It overlooks a courtyard garden of the kind known here as a pulmón de manzana – literally, the lung of a block – which affords it a view of the sky and an expanse of plants, trees and vines that meander along the walls of neighbouring houses, marking the passage of the seasons with their colours. In addition, the window shelters the library of my late husband, Jorge Luis Borges. It is a real Library of Babel, full of old books, their endpapers scribbled with notes in his tiny hand.
As afternoon progresses and I look up from my work to gaze out of this window, I may be invaded by springtime, or if it's summer, by the perfume of jasmine or the scent of orange blossom, mingled with the aroma of leather and book paper, which brought Borges such pleasure.
The window has one more surprise. From it, I can see the garden of the house where he once lived and where he wrote one of his best-known short stories, "The Circular Ruins''. Here, I can move back and forth between two worlds. Sometimes, following Borges, I wonder which one is real: the world I see from the window, bathed in afternoon splendour or sunset's soft glow, with the house that once belonged to him in the distance, or the world of the Library of Babel, with its shelves full of books once touched by his hands?


Este texto foi publicado no New York Times em 02/02/2011.

Desde de 1 de agosto Matteo Pericoli publica, uma vez por mês, textos e desenhos de vistas de janelas de escritores espalhados pelo mundo com o título de “Janelas para o Mundo”. Os desenhos são acompanhados por descrições do “dono” da vista.



Matteo é um ilustrador italiano conhecido pelo seu livro “Manhattan Unfurled” com desenhos de todo o horizonte de prédios de Nova York.

Seu segundo projeto, o livro “The City Out My Window: 63 Views on New York", ele desenhou a vista da janela de alguns moradores famosos de NY.

Neste projeto do NYT já foram visitados: Orhan Pamuk em Istanbul, Daniel Kehlmann em Berlin, Andrea Levy em Londres, Ryu Murakami em Tóquio, Chimamanda Ngozi Adichie em Lagos, Maria Kodama e Jorge Luis Borges's em Buenos Aires e Rana Dasgupta em Delhi.

Segue abaixo numa tradução livre o texto. Que me desculpem os tradutores, é só uma tentativa de fazer o texto chegar a quem não fala inglês.

Uma certa casa no bairro da Recoleta em Buenos Aires possui uma janela que é duplamente privilegiada. Ela abre-se para um jardim conhecido aqui como pulmão de manzanas – literalmente um pulmão verde – que lhe permite ver o céu e uma grande quantidade de plantas, árvores, e vinhas que serpenteiam os muros das casa vizinhas e marcam com suas cores a passagem das estações. Além disto, a janela abriga a biblioteca de meu falecido marido Jorge Luis Borges.

É a verdadeira Biblioteca de Babel, cheia de livros antigos, seus últimos papéis com notas rabiscadas pela sua pequena mão.

À medida que a tarde cai, eu descanso os olhos do meu trabalho para apreciar esta janela, e posso ser invadida pela primavera, ou se é verão pelo cheiro do jasmim ou o perfume das laranjeiras, misturados ao aroma do couro e do papel dos livros que davam tanto prazer a Borges.

A janela tem uma surpresa a mais. Dela, posso ver o jardim da casa onde Borges viveu e escreveu um dos seus mais conhecidos contos: “Las Ruinas Circulares”. Aqui eu posso ir e vir entre dois mundos. Algumas vezes, segundo o próprio Borges, me pergunto qual dos dois é real: o mundo que vejo da janela, banhado pelo esplendor da tarde ou pelo brilho delicado do por – do – sol, com a casa que lhe pertenceu à distância, ou o mundo da Biblioteca de Babel, com suas prateleiras cheias de livro que um dia suas mãos tocaram?

Vale a pena ir ao site de Matteo e conhecer seu trabalho.

O que a sua janela mostra e o que ela abriga?




A minha janela atual se abre pra tantas possibilidades quanto o número de outras janelas que vejo, e abriga meu trabalho de toda a vida: família.























sábado, 5 de março de 2011

3900 amigos

Percebi que este Sótão e Porão tinha recebido 3900 visitantes.


Como chegaram aqui? Não sei.
Um lugar para guardar coisas para encontrar ou se livrar de outras é assim mesmo. Recebe visitas inesperadas, mas nem tantas assim.

Sinal de que encontram o que querem.


A porta aberta é convite, a flor aberta é convite, e amizade não é convite é privilégio.





Para agradecer a tantos visitantes procurei uma poesia para os que já conhecem e para aqueles que por acaso entrarem aqui sem saber muito bem do que se trata.


Muito obrigado, é muito bom termos uns aos outros.





Beijos das Traças e dos Cupins





Com vocês, Vinícius de Moraes





Soneto do amigo


Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.


É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.


Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.


O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...

A traição da Bainha das Calças

Fevereiro foi embora e no meio de tanta coisa quase ia esquecendo de contar a história da Suzy, que já nos brindou com uma história deliciosa de um vestidinho xadrez.










O carnaval, em março, está começando, e é bom pensar em como vai acabar.

Carnaval é uma época que nos permitimos tudo, ou melhor, há anos atrás onde nada era permitido o carnaval nos dava uma folga para viver as fantasias (por favor, com trocadilho) que desejássemos.

Quer ser cigana? Quer ser bailarina, pirata, mau-caráter, se travestir de mulher, usar a saia mais curta? Fique à vontade, é carnaval, ninguém está olhando. Todo mundo está como você, preocupado em ser outra coisa, pelo menos por alguns dias.

Suzy começa sua história assim:

Às vezes não são nossos vestidos que nos causam uma alegria ou tristeza.

Aquele que não ficou bem ajustado nos deixa inquieta, e nos compromete deixando-nos insegura.











Mas a bainha de uma calça?

Pode uma bainha também trazer preocupação ou encrenca?




Imagina só o que achei numa folha de papel cheia de pó, caída atrás da prateleira lá do sótão.

- Suzy, posso escrever que tinha também uns confetinhos e umas serpentinas desbotados?

Confete e serpentina, um não vive sem o outro e o carnaval não vive sem eles.

Dois irmãos nascidos com diferença de 1 ano.

Apesar do confete vir de “confetti” ou confeitos de açúcar que as pessoas jogavam umas sobre as outras em Roma nos corsos pelas ruas da cidade, eles apareceram pela primeira vez feitos de papel em Paris em 1892.

A serpentina por sua vez foi inventada 1 ano depois por um funcionário dos telégrafos que utilizou tiras de papel já utilizado e que iriam para o lixo.

Mas a história da Suzy é muito mais interessante:



A TRAIÇÃO DA BAINHA DAS CALÇAS



As roupas da excursão de barco foram afundando na água ao mesmo tempo em que os confetes foram colorindo o tanque.






- Confetes? Como?


Não fora aquele passeio pela Lagoa dos Patos organizado para fugir do carnaval, buscar sossego e tranqüilidade?


E agora... Confetes?


Aqueles velejadores não queriam fugir do carnaval?


Dali há uns 40 dias o tempo começaria a mudar e os passeios de barco teriam que ser suspensos até a primavera, então aproveitar esta semana para um longo passeio seria perfeito. Sim, e o mais importante: ninguém gostava de carnaval.


Mas, um momento... Sim, eram confetes, bem coloridos, não havia dúvidas.



Os bolsos das calças, amigos fiéis, tinham sido devidamente examinados, pelo dono das mesmas, mas a bainha, mulher de língua comprida, tinha sido traiçoeira.




Carnaval, ou melhor o tempo depois do carnaval, sempre requer explicação, mesmo quando se foge dele.


- Bem... sim...não...
É que no caminho do restaurante havia um bloco de carnaval e nos atiraram confetes...
Sim foi só isso mesmo... deve ter sido neste instante.




Muitas explicações tiveram que ser dadas.



E como toda a explicação, por mais que fosse sincera, havia sempre uma vírgula que deixava espaço para uma dúvida a mais. Uma hesitação, ou incongruência no contar e mais um confete pulava da calça.


A noticia se espalhou aos quatro cantos do Yacht Clube da cidade que se orgulhava de ter um carnaval que durava 1 semana - igual, só na Bahia.


No ano seguinte, já avisados do acontecido, outros tantos velejadores foram procurar “sossego” na Lagoa dos Patos, no sul do Brasil.





Içaram suas velas, e com suas bússolas apontando para latitude 31º21'55" sul e longitude 51º58'42" oeste rumaram para São Lourenço do Sul.





Tantos barcos entrando pelo estreito canal causaram um alvoroço na cidadezinha. Alvoroço igual somente com Garibaldi e Anita, afinal era carnaval, e se os próprios aparecessem ninguém iria estranhar.





À beira da Lagoa, entre figueiras, plátanos e coqueiros, improvisaram um ancoradouro seguro para passarem aqueles dias.





Depois de bem instalados e com muita fome, era a hora de procurar um restaurante, mas não servia qualquer um. Tinha que ser aquele, que ficava no caminho dos blocos, do carnaval de rua, que já começava a esquentar.



Pois bem, o refúgio calmo ficou para os barcos, pois se descobriu que os velejadores "fugiam" de um carnaval para entrar em outro.


Os mais jovens, sem precisar dar muitas explicações, rapidamente acharam o baile, e como convidados especiais, sem fantasia e sem máscaras, se esbaldaram até a Estrela D’Alva aparecer.



Mas, eram velejadores e não foliões, então, ao retornar ao barco trataram de retirar os confetes dos cabelos, bolsos, e não deixar vestígios, mas as caras e as pernas traíam o cansaço.



Esta fuga do carnaval para encontrar outro carnaval fez surgir o Encontro da Vela em São Lourenço do Sul, evento que entrou para o calendário náutico e que se repete todos os anos.


Além dos confetes, serpentinas, e velas içadas, o vento, que sopra constantemente na Lagoa, traz o aroma das baforadas do cachimbo do comandante desavisado João Hugo que esqueceu confetes na bainha das calças.




Suzy, obrigada pela foto correta.

Nas letrinhas miúdas à esquerda da foto está escrito: Velejar é passar uma esponja nas preocupações. J. H. Altmayer.

O comandante sabia das coisas...


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011


Minha querida amiga Denise,

Como nas cartas de antigamente, escrevo estas mal traçadas para te dizer que estou aqui na nossa terra.

Li teu poema sobre as 5 Marias e fui procurar as minhas 5 Marias para te convidar para um joguinho rápido enquanto nossas mães não nos chamam para tomar banho e jantar.

Como não achei no Sótão, e muito menos no Porão, pois jóia rara que são não é lá que estariam, achei que deveria ir à Rua Oswaldo Cruz e anotei o seguinte para te contar.

"Hoje eu fui à nossa rua.

Fui a pé, sem sapatos, como antigamente. Queria sentir a areia quente, espetar espinho ou gravatá na sola, só para sentir aquela dorzinha fina.

Queria ver também se ainda estavam impressos no chão, esmagados pelos carros cobras e sapos, fósseis de pernas abertas e corpo mutilado que davam nojo, mas um gostinho de vitória – "destes escapamos".

Os terrenos baldios, cheios de vira-latas atrás de comida, agora estavam habitados por construções feias, verdadeiros muquifos, colados uns nos outros e, o que mais sobrava - liberdade para os olhos - era o que mais faltava respirando este enfileirado de casas.

Fui olhando as casas, mas as novas me confundiam o olhar e, só quando eu já tinha passado por uma daquelas antigas, me vinha à memória o jeito como ela estava guardada.

O caminho que estava dentro de mim tão simples e pouco habitado custava a se espelhar naquela rua real.

Não cresci muito, em tamanho bien sur, desde que vendemos a casa, mas a rua pareceu tão curta, tão sem graça...

Cheguei rápido demais à minha casa.

A casa está feia e se estivesse abandonada me causaria tristeza, mas habitada e mal cuidada me fez mal.

Todas as casas daquela quadra estão do mesmo jeito. Seus donos, atuais ou antigos, não parecem preocupados com certa dignidade que aquela rua tinha.

Toda a quadra enfeou junta: foi dada uma ordem e todas obedeceram sem contestar.

Os terrenos ainda baldios que sobram são os que mais enfeitam a rua.

Não sei que nome tem as flores roxas e amarelas que nascem naqueles campos sem dono, mas, cuidadas por ninguém, fazem mais pela memória do que existia do que o atual estado das coisas.

Fiquei com vontade de dar um grito:
- Vocês sabem como fomos felizes aí?
Que esta casa e as outras como a da Margareth, do Eduardo, da Denise, da Glória, já tiveram vida melhor do que vocês estão dando a elas?

Desisti, nem iriam me ouvir.

Dei meia volta e chutei uma pedra. Embaixo dela 5 pedrinhas sorriam: eram as 5 Marias das nossas tardes preguiçosas de Clube Juvenil, onde em campeonatos disputadíssimos gastávamos o tempo da infância.

Este sim: comprido, bonito, livre, povoado de casas arrumadas e bem tratadas, onde entrávamos e saíamos só para comer e dormir - a rua era nossa.

A rua real é a rua real, mas a da memória é a que atravesso todos os dias com minhas 5 Marias no bolso, chamando as outras Marias para no chão jogarmos as pedrinhas e rirmos a larga.
E sem saber que fazíamos como Fernando Pessoa, que nem tinha nascido para nós naquele tempo, mas já guardava rebanhos:

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Quer jogar? "

Beijo
Martha





quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Em fevereiro tem carnaval




Em fevereiro (em fevereiro)
Tem carnaval (tem carnaval)
Tenho um fusca e um violão




Do fusca e do violão falaremos depois mas, carnaval, É em fevereiro , apesar de cair em março este ano.

Ontem, dia primeiro de fevereiro, já dei uma revirada no Sótão e no Porão e achei textos, fantasias, músicas, alegrias, tristezas, amores de carnaval.

No meio de tantas Cleópatras, Palhaços, Colombinas, Pierrots, Mascarados, funkeiros, “Axézeiros”, quem se importa se estamos rindo, chorando, amando, beijando?

Quando poderemos de novo dar aquele beijo sem pudores no meio de tudo e de todos?
Dançar de qualquer jeito?
Obedecer a quem nos obedece o ano todo? Ai do grande engenheiro, que faz a roncar a cuíca na bateria, se roncar fora do apito do mestre; é aquele mesmo, o mestre de obras que ouve broncas o ano inteiro.

Carnaval é isto, a transgressão do ano inteiro. E não é à toa que por aqui o ano só começa depois do carnaval, depois que purgamos todo o peso do ano anterior, ficamos prontos para o seguinte.

E vamos começar com dois fatos inusitados: Machado de Assis e o ano em que não teve carnaval no Rio.

Não, não tem lança-perfume nem bebida alcoólica aqui e isto não é um texto de ficção, desculpe a piada barata - de ficção científica.

Quem conta isto é Artur Xexéo, no Globo de hoje, com quem fico fazendo concorrência aqui na internet pelo número de leitores; ele diz que tem 17 e eu já tenho 26.

Recomendo ler a crônica, que não trata só de carnaval, trata do valor de uma obra do maior escritor brasileiro, mas isto, meus caros, vocês podem descobrir no site dele.

O livro do qual foram extraídos os trechos citados por Xexéo é de uma coletânea de crônicas sobre o Rio, escritas por Machado de Assis em 1894 e 1895.

Segundo a crônica, o carnaval de 1894 no Rio de Janeiro foi proibido por lei; talvez, segundo Xexéo, por conta da Revolta da Armada de 1893 (Google para maiores detalhes) e o povo cumpriu a lei.

Por que? Não se sabe, pois já naquele tempo havia leis que não pegavam, mas esta pegou e Machado comentou:

“Quando eu li que este ano não pode haver carnaval na rua, fiquei mortalmente triste. É crença minha, que no dia em que deus Momo for de todo exilado deste mundo, o mundo acaba. Rir não é só le propre de l’homme, é ainda uma necessidade dele. E só há riso, e grande riso, quando é público, universal e inextinguível(...)”

Não conheço a vida de Machado a fundo, mas não imagino-o de mãos dadas com Carolina, fantasiados, brincando com confetes e serpentinas, brincando pelas ruas do Rio. A lança-perfume só apareceria em 1904.

Indignado com a proibição, no dia 11 de fevereiro ele registra:

“Nunca houve lei mais fielmente cumprida do que a ordem que proibiu, este ano, as folias do carnaval. Nem sombra de máscaras na rua. Fora da cidade, vi quarta-feira de cinza algum “confetti” no chão. Crianças naturalmente que brincaram da janela para a rua, a menos que não fosse da rua para a janela. Os chapéus altos, que desde tempos imemoriais não ousavam atravessar aquela região no mundo que fica entre a Rua dos Ourives e a Rua Gonçalves Dias, e que é propriamente a Rua do Ouvidor, iam este ano abaixo e acima sem a menor surriada. Quem nos deu tal rigorismo na observação de um preceito?

Como Carnaval é festa móvel, e a conta faz perder a graça da festa, em 3 de fevereiro de 1895 Machado publicou outra crônica e, pelo escrito, ficou feliz:

“Tantas são as matérias em que andamos discordes, que é grande prazer achar uma em que tenhamos a mesma opinião. Essa matéria é o carnaval. Não há dois pareceres; todos confessam que este ano foi brilhante, e a mais de um espírito azedo e difícil contentar ouvi que a Rua do Ouvidor esteve esplêndida.
Ouvi mais. Ouvi que houve ali janela que se alugou por duzentos mil réis, e terá havido outras muitas. É ainda uma causa da harmonia social, porquanto, se há dinheiro que sobre, há naturalmente conciliação pública. Nas casas de pouco pão é que ao adágio acha muito berro e muita sem razão. Uma janela e três ou quatro horas por duzentos mil réis é alguma coisa, mas a alegria vale o preço. A alegria é a alma da vida. Os máscaras se divertem à farta, e aqueles que os vão ver passar não se divertem menos, não contando a troca de “confetti” e de serpentinas, que também se faz entre desmascarados. Uns e outros esquecem por alguns dias as horas aborrecidas do ano.”

Graças a Jorge Benjor, comecei cantando.

Graças a Xexéo, achei o assunto de hoje.

Graças a Machado lembrei e aprendi:
1- Só o homem ri e o faz por necessidade
2- Que “surriada” é uma descarga de artilharia, um alarido com intuito de vaiar.

Graças a Suzy, amanhã ou depois saberemos o que é “confetti” e o que ele pode causar.

Graças a Dionísio ou Baco, como queiram, temos o carnaval.

Vamos em frente, que "o tempo ruge e a Sapucaí é grande" mas

Cuidado que a Mangueira vem aí, e é melhorar se segurar que a poeira vai subir...

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Tempos Paradoxais

A arte, e a literatura em especial, tem sempre algo para explicar aquilo que vem sem explicação. Precisamos de legenda para tudo, e o que vemos nestes tempos de catástrofes, naturais ou provocadas pelo homem, é tão difícil de nomear que fui buscar em dois autores ingleses uma tentativa de legenda.

Charles Dickens abre seu “Conto de Duas Cidades” com uma descrição, hoje universal, pois, não há quem não a conheça, de tempos paradoxais; tempos onde a menor tentativa de explicação traz nela própria seu oposto: a sabedoria e a insensatez, a crença e a descrença, a luz e as trevas. Tão atual que poderia estar em qualquer coluna de jornal saído agora mesmo da gráfica, ou conforme nossa atualidade, publicado em qualquer mídia eletrônica. Só não daria no Twitter, pois nem sempre com 140 caracteres se explica o inexplicável.

Segue o texto:




Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o paraíso, íamos todos direto no sentido contrário – em suma, o período era em tal medida semelhante ao presente que algumas das suas mais ruidosas autoridades insistiram em seu recebimento, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação.

São tempos onde o melhor e o pior da humanidade vem à tona e, pieguices à parte, nos identificamos com cada pessoa que sai da tela da televisão e derrama seu drama ou sua vitória no nosso sofá, na nossa mesa de trabalho ou na de jantar e fica lá a nos perguntar: “e você vai continuar aí anestesiado?”

O homem, que se apresenta diante das câmeras, nos orgulha ou nos envergonha, pois ali somos nós, desnudados, frágeis e à mercê de forças que desconhecemos.

John Donne, poeta jacobino inglês que viveu no século XVI, escreveu uma das peças mais lindas sobre a humanidade e que nos liga a todos os homens. O trecho é de uma de suas meditações, é também uma das peças mais conhecidas da literatura.

O texto original é este:






No man is an island, entire of itself;every man is a piece of the continent, a part of the main;if a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were, as well as if a manor of thy friend's or of thine own were. Any man's death diminishes me, because I am involved in mankind, and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee.



Na tradução de Paulo Vizioli, fica assim:



Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme.


Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar um teu amigo, ou o teu próprio.


A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.


Se cada vez que vemos uma injustiça, uma violência, uma abandono, uma morte, um nascimento, uma superação e nos sentimos parte dela é porque apesar de todas as provas em contrário, não somos ilha, somos continente.


Hoje vamos com uma só foto - já vimos demais esta semana - tirada num dos lugares mais movimentado do mundo, a Quinta Avenida em NY.

No meio do burburinho, no lugar de consumo desenfreado, está plantada está escultura, feita do mais duro bronze e de uma leveza incomparável, um homem, só um, carrgea o mundo nos ombros. O homem é maciço, forte, um deus e com sua força suspende um planeta inteiro, leve, ôco, feito de poucas linhas.

O homem mais forte que o mundo?
Seria Atlas?
Não, eu mesmo.