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sexta-feira, 2 de março de 2012

Dim Sum

Qual a comida que toca o coração?
Perguntinha boba, cafona e clichê...

Quem não tem a sua "madeleine" para sacar rápido na resposta?
Mas vamos deixar a resposta rápida de lado e vamos ao título do post.

DIM SUM, que em cantonês significa "direto ao coração", pequenos bocadinhos de comida, que podem ser doce ou salgado, com carne ou vegetariano, cozido no vapor - o mais tradicional - ou frito. São conhecidos na China há milênios.

Só um pouquinho: tudo o que acontece na China tem pelo menos 1000 anos, e isto quando se quer falar em algo mais recente.
 Eram servidos, acompanhados de chá, aos viajantes e trabalhadores desde os tempos da Rota da Seda nas estalagens das estradas.

Nunca tinha experimentado esta iguaria.
Fácil de pegar com os hashis, pois são firmes e em forma de trouxinhas, e na boca desmancham suavemente espalhando o caldinho e o recheio numa combinação leve e saborosa.

O chá de jasmim realça o sabor do Dim Sum e é servido insistentemente pelo garçom.

Mas o que eu quero falar é da comida que vai "direto ao coração".
Aquela que, pela sofisticação da simplicidade, cerra nossos olhos, pede silêncio, nos faz soltar um suspiro de felicidade e, quase nos faz levitar.

O meu Dim Sum, o que vai direto ao meu coração:

Parar num restuarante velho conhecido no meio de uma estrada e pedir


um bife acebolado











e de sobremesa,



 sagu de uva com creminho de baunilha: o sagu geladinho e o creme morno.










Sofisticações do afeto, pois.

 Pratos que requerem cuidado e dedicação total  para " não passar do ponto" e "para não embolar".

O Dim Sum não me toca o coração porque não faz parte das minha memórias afetivas, o seu valor foi ter me feito pensar no que me traz felicidade à mesa.

E se a mesa estiver cheia, melhor ainda.

Dê uma olhada no seu Sótão ou no seu Porão e traga para cá o seu Dim Sum.



quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A Quem Fica


“... Acordemos, então, que não é prefácio isto, mas aviso simples ou prevenção, como aquele derradeiro que o viajante, já no limiar da porta, já postos os olhos no horizonte próximo, ainda deixa a quem lhe ficou a cuidar das flores.

... A felicidade fique o leitor sabendo, tem muitos rostos. Viajar é, provavelmente, um deles. Entregue suas flores a quem saiba cuidar delas, e comece”.

Acertou quem reconheceu aqui a escrita de Saramago.

São trechos do prefácio do seu “Viagem a Portugal”. Livro para ser lido ao som de um fado na voz de Amália Rodrigues, de um copo de Vinho do Porto e de um Pastel de Belém que, com certeza, deixarão algumas marcas na brancura das páginas e que, por sua vez, também nos marcarão em algum lugar.

Não recomendo a leitura como um guia de viagem, nem Saramago o faz, não siga o itinerário dele, procure o seu caminho dentro das possibilidades dos caminhos que um país com alma oferece e que um escritor/viajante transforma no Portugal de cada um.

Mas não é de viagem que quero falar. Penso nas flores.




Vejo o pequeno ou a pequena ao lado dos avós ouvindo o último aviso da mãe sobre algum cuidado indispensável que não poderia ser esquecido. Vejo seus olhos no horizonte, divididos entre o prazer da viagem, “são só alguns dias”, e a dificuldade da separação. O pai aproveita de se ocupar com o carro para esconder a emoção.

Naquele tempo bastava trocar os pequenos de quarto e tudo estava arranjado. A educação e os cuidados trocavam suavemente de mãos.




Mas assim mesmo aquele momento era horrível. A pequena ou o pequeno sentindo-se abandonados trocados por qualquer prazer, está claro que não pensavam assim, sentiam assim, esperneavam e choravam. E não havia nada que os consolasse, nem o colo quente da avó e nem todas as suas promessas de comer, dormir e brincar a qualquer hora.

E quase sem perceber o pequeno ou a pequena passam para o outro lado da porta.
Lançam avisos aos que ficam agora com suas crianças, avisos mais complexos. A vida destas crianças necessita de uma agenda de várias folhas com todos os compromissos, remédios para todas as alergias, e médicos para as diversas mazelas que sempre as crianças tiverem, mas que agora necessitam de olhos super treinados, os olhos antigos não servem mais.

A troca de mãos já não é tão suave, a insegurança de quem vive nos tempos modernos precisa mais do que uma avó amorosa para lhes acalmar, precisa de especialistas, afinal, estas crianças são gourmets exigentes, executivos com múltiplas tarefas e frágeis ao ponto de precisarem de supervisão constante. Grandes perigos podem se apresentar para elas.

E de novo quase sem perceber, na porta lançam o olhar para trás: os pequenos se foram e outros pequenos ainda não chegaram.

Sobram de fato as flores, as samambaias ou talvez um cachorro que, percebendo a partida, se agita um pouco para logo depois se postar à porta à espera.

A lista de procedimentos desta vez é para quem parte.

Para as flores, a primavera acontece todos os anos; para as gentes, é preciso criá-la sempre.



E assim, depois de tanto tempo sem ir ao Sótão e ao Porão, eu volto.




E lá se vão 45 dias de primavera.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Mais uma viagem a Portugal







Pouca terra e muito mar é assim que penso Portugal.

Lisboa sempre me espera linda já de manhã cedo e, apesar de toda a sua beleza, é o Tejo que enche meus olhos de desejo.

Descer a Av. da Liberdade no meio dos plátanos até a Praça do Comércio, dobrar à direita, e daí até Belém. Cumpro à risca este ritual. Não posso deixar de ver Lisboa por este ângulo, nem deixar de contemplar em silêncio e respeitosamente a sua história, a minha história.

Mosteiro dos Jerônimos, Padrão dos Descobrimentos, Torre de Belém:


começava ali a nova cara do mundo – Fernão de Magalhães, Vasco da Gama, Cabral e, muito mais tarde, José Estima, meu avô. Todos se lançaram a este mar desconhecido que bate nas areias finas e brancas de Belém, nas pedras do Guincho, da Boca Inferno




e do Cabo da Roca.






A primeira vez que vi o mar de Portugal foi a bordo de um navio, saindo de Lisboa ao entardecer: um dos meus primeiros descobrimentos, ou alumbramentos? O vento na proa soprava a História e trazia para mim o espírito dos portugueses – marinheiros, poetas, amantes – gente simples, mas mui VALOROSA.

Como resistir ao convite das velas brancas deslizando pelo Tejo? Embarcava com elas e me deixava levar.

Mais uma viagem a Portugal.

Desta vez as velas não me tentarão. Desta vez quero ficar em terra firme, quero ver a terra, a serra, o rio. Mas que viagem fazer? Qual terra, qual serra, qual rio buscar?

Olho para a minha estante e alguns amigos de longa data estão lá, prontos para me ajudar: Fernando Pessoa (que desde cedo me acompanha), Eça, Saramago, mais recentemente Miguel de Souza Tavares e sua mãe Sophia de Mello Breyner Andresen e, por último, Camões, que deveria ter sido o primeiro.

Logo na primeira busca Miguel me dá de presente este trecho do seu livro “No teu deserto”:

“(...) estávamos a amarrar em Gibraltar, debruçados na amurada do barco que nos tinha trazido do Marrocos durante a noite, olhando a manhã de Dezembro, limpa e deslumbrante sobre as águas quietas do Estreito, e tu me perguntaste:
- Em que pensas?
- Estava a pensar que há viagens sem regresso. E que nunca mais vou voltar desta viagem. Nunca mais vou regressar do deserto.”

E comecei a entender o que se passa comigo cada vez que chego à Lisboa.

Portugal é a viagem da qual nunca retorno. É onde entendo o Brasil, onde me sinto em casa mesmo longe, onde meu pai me acompanha em cada esquina, em cada grade de sacada, em cada parede de azulejo, em cada Ourivesaria.

Parece que lhe escuto a dizer:
Olha o Santo Antoninho ali naquela fachada.
Vê esta cidade e não te esqueces: foi daqui que partimos.
Anda, vamos comer um docinho, o que é do gosto regala a vida.
Compra esta Nossa Senhora da Conceição, é linda...

Camões me convidar a ir: (...) “lá onde a terra acaba e o mar começa.”



E continua:

“Já a vista, pouco e pouco, se desterra
Daqueles pátrios montes, que ficavam;
Ficava o caro Tejo e a fresca Serra
de Sintra, e nela os olhos se alongavam.

Ficava-nos também na amada terra
O coração, que as mágoas lá deixavam
E já depois que toda se escondeu,
Não vimos mais, enfim, que mar e céu.”

Eça em “A Relíquia” completa a viagem de Camões:

“Depois, uma manhã, cortando a vaga azul, avistaria a serra fresca de Sintra; as gaivotas da pátria vinham dar-me o grito de boa acolhida.”


O barco de Camões encontra seu porto seguro e, em terra firme Pessoa me convida para o seu Chevrolet:




“Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
(...)”

A Serra de Sintra – como não pensei antes?


Leio em Saramago:

“Todos os caminhos vão dar a Sintra. O viajante já escolheu o seu. Dará a volta por Azenhas do Mar e Praia das Maçãs, espreitará primeiro as casas que descem a arriba em cascata, depois o areal batido pelas ondas do largo, mas confessa ter olhado tudo isto um pouco desatento, como se sentisse a presença da serra atrás de si e lhe ouvisse perguntar por cima do ombro: “Então, que demora é essa?“

Em Saramago decido: quero ir à Sintra

Não posso deixar o Prêmio Nobel esperando uma resposta e, no primeiro dia de outono, deixo Lisboa para trás e a Serra de Sintra toca o céu lá longe.

Não darei adeus à Europa como Vergílio Ferreira: “Sintra é o mais belo adeus da Europa quando enfim encontra o mar. Camões o soube quando os seus navegadores a fixaram como a última memória da terra, antes de não verem mais que “mar e céu”. E no entanto, ou por isso, o espaço que ela nos abre não é o da infinitude mas o do que a limita a um envolvimento de repouso. Alguém a trouxe de um paraíso perdido ou de uma ilha dos amores para uma serenidade de amar. Ela é assim o refúgio de nós próprios e de todo o excesso que nos agride ou ameaça.”

Ao contrário, começarei a ver a Europa por ali.

Buscarei em Portugal também o amor de Pedro e Inês, a “Sofia” de Coimbra, o túmulo que espera o rei que nunca voltou da guerra, um claustro onde eu possa sentar e “ouvir” um monge rezando no curso infinito da água de uma fonte, um doce bem doce, um porto aveludado e de cor ruby.

Já no meio da subida a presença maciça de plátanos, sobreiros e pinheiros parece a cada curva competir com o mar que vai ficando mais longe, mas obstinadamente volta a aparecer nos Sete Ais, no Castelo dos Mouros, no Palácio da Pena, sumindo nos Capuchos e em Monserrate.

Em certo momento parece que paro e a natureza passa por mim, desfilando seus tons de verde, amarelo, vermelho e em algum lugar que não sei onde vou buscar a lembrança: “e alguns plátanos já nus, que cansados de tanto calor soltam as folhas no chão.”




Hans C. Andersen, em seu diário “Uma Visita a Portugal”, diz: “A mais bela e decantada parte de Portugal é a inigualável Sintra; ... Diz-se que todo o estrangeiro poderá encontrar em Sintra um pedaço da sua pátria. Eu descobri aí a Dinamarca.”


Os plátanos agora ocupam todos os lugares, fora e dentro de mim. Antes de caírem seus galhos e folhas regidos pelo vento, imitam ora o mar, ora os pássaros, ora uma canção de ninar que ficou lá atrás e que suave me embala novamente.



Piso leve neste tapete, são minhas lembranças.

Manuel Tavares terá mesmo razão? De algumas viagens não se volta? Ou será que alguns lugares nunca se deixam?




Para saber é preciso se lançar, o caminho fará o resto.



























segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Viagens das quais não retornei

As Traças e Cupins estão revirando outros Sótãos e Porões em busca de um caderno especial chamado: VIAGENS DAS QUAIS NÃO RETORNEI.

Já subiram....

Já desceram...



E o caderno não aparece.



Talvez esteja na prateleira do SERENDIPITY, pois ali pode estar qualquer viagem.



Por exemplo:


As de Contos de Fada



As de Descobrimento



As que nos afastamos do mundo para vê-lo de cima e tomarmos nova perspectiva das coisas









As que temos um farol a nos guiar






ou aquelas em que simplesmente pegamos a primeira estrada e seguimos,






em busca das origens






testemunhando novas histórias de amor
e assim juntando partes da família que há muito tempo não se encontravam



porque nada mais importante do que raízes


Tem também aquelas em que apreciamos uma boa mesa






Ou que nos deliciamos com a simplicidade dos sabores mais antigos do mundo




Pão




Vinho



Azeitonas e azeite de oliveiras centenárias





As que relembramos histórias de amor





Viagens onde se pede ou agradece






e onde se busca um lugar para contemplar e ficar em silêncio.
Aqueles lugares onde se "é do tamanho do que eu vejo e não do tamanho da minha altura".



Acho que aqui nesta escrivaninha pode ser que apareça algo.














Enquanto isto procurem também e dividam aqui conosco.