sexta-feira, 2 de março de 2012

Dim Sum

Qual a comida que toca o coração?
Perguntinha boba, cafona e clichê...

Quem não tem a sua "madeleine" para sacar rápido na resposta?
Mas vamos deixar a resposta rápida de lado e vamos ao título do post.

DIM SUM, que em cantonês significa "direto ao coração", pequenos bocadinhos de comida, que podem ser doce ou salgado, com carne ou vegetariano, cozido no vapor - o mais tradicional - ou frito. São conhecidos na China há milênios.

Só um pouquinho: tudo o que acontece na China tem pelo menos 1000 anos, e isto quando se quer falar em algo mais recente.
 Eram servidos, acompanhados de chá, aos viajantes e trabalhadores desde os tempos da Rota da Seda nas estalagens das estradas.

Nunca tinha experimentado esta iguaria.
Fácil de pegar com os hashis, pois são firmes e em forma de trouxinhas, e na boca desmancham suavemente espalhando o caldinho e o recheio numa combinação leve e saborosa.

O chá de jasmim realça o sabor do Dim Sum e é servido insistentemente pelo garçom.

Mas o que eu quero falar é da comida que vai "direto ao coração".
Aquela que, pela sofisticação da simplicidade, cerra nossos olhos, pede silêncio, nos faz soltar um suspiro de felicidade e, quase nos faz levitar.

O meu Dim Sum, o que vai direto ao meu coração:

Parar num restuarante velho conhecido no meio de uma estrada e pedir


um bife acebolado











e de sobremesa,



 sagu de uva com creminho de baunilha: o sagu geladinho e o creme morno.










Sofisticações do afeto, pois.

 Pratos que requerem cuidado e dedicação total  para " não passar do ponto" e "para não embolar".

O Dim Sum não me toca o coração porque não faz parte das minha memórias afetivas, o seu valor foi ter me feito pensar no que me traz felicidade à mesa.

E se a mesa estiver cheia, melhor ainda.

Dê uma olhada no seu Sótão ou no seu Porão e traga para cá o seu Dim Sum.



quinta-feira, 1 de março de 2012

Por que o blog parou?







Este blog vive de soluços, ou como diria minha heroína Emília, vive de pisca-pisca.
Pisca e ama, pisca e come, pisca e chora, pisca e ri, pisca e viaja, e viaja e viaja e não para de piscar nem de viajar.

Não pensei que o mundo fosse tão grande assim. Inocente? Talvez. Inconsequente? Um pouco Peito aberto sempre? É lógico!


Alguma dica do que fazer quando a gente se sente assim?

O que buscar no Sótão e Porão para não perder de vez a referência?
Afeto? Com certeza.
Poesia? Sem dúvida
Comida boa para o corpo e alma? É sempre bom começar com um café da manhã completo
Sirvamo-nos, a mesa está posta no post seguinte. Opa! Acho que deslizei. 
É a fome e a vontade de comer ao redor da mesa farta e dos amigos do peito. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

1 de dezembro


E chegou dezembro...


Iniciei com 1 dia de atraso o Calendário do Advento - tempo de espera. Enquanto espero, penso, lembro, reflito.


Momentos novos despertam os já vividos num delicado abrir e fechar de armários a procura de lembranças.


Os americanos chamam de “walk in closet”, o armário que nos envolve com prateleiras, cabides e gavetas.


Nestes “walk in closets” as lembranças nos espreitam em lugares inusitados e, uma vez lá dentro, a noção de tempo se transforma, e, suspensos no ar pelo cheiro do passado cuidadosamente dobrado e arrumado, flanamos sobre nós mesmos.


Os museus são para mim um tipo de “walk in closet”, principalmente os pequenos, meus preferidos; aqueles que foram um dia a casa de alguém, ou os que guardam em lugar especialmente construído, uma coleção particular. Entrar num destes museus me provoca, ora, uma sensação de intimidade com o dono, ora, uma sensação de constrangimento, como se pisasse em lugar privado que não deveria ser exposto a tantos olhos.


Mas, voltando ao armário. Outro dia entrei em um deles. Foi no Metropolitan Museum em Nova Iorque que, pelo seu gigantesco tamanho, parece não dar espaço para experiências intimistas.

Engano.

Gosto de entrar neste museu contornando a escadaria central pela direita e seguir em frente até a Ala Medieval de Esculturas.


 No caminho vou desacelerando a energia de Nova Iorque: o trânsito barulhento das buzinas e sirenes, as ordens dos guardas para a inspeção das bolsas, a fila enorme da chapelaria, o formigueiro de gente no “Great Hall” – tudo fica para trás.

O grande atrium iluminado dramaticamente, e propositalmente escuro, aguça meus sentidos e me faz mais observadora. As vozes diminuem, a temperatura cai em alguns graus. O momento é de instropecção.

A grade do coro da Catedral de Valadolid, ao fundo, ao mesmo tempo que me convida a entrar, me protege do mundo externo; fecho os olhos e tento ouvir um coro gregoriano, as vozes dos monges que me conduzirão à vida eterna. Ali começo a visita, e ali gosto de terminá-la. A emoção do que vi pelas inúmeras salas, guardo-a naquele hall, para encontrá-la na próxima vez, como se fosse a primeira.


Mas ontem, este “walk in closet” abriu uma porta nova, uma passagem secreta dentro do armário conhecido.


Ao chegar ao hall medieval me deparei com uma imensa árvore de natal e um presépio ao seu redor.





Eram 16:30, todas as luzes se apagaram e “Noite Feliz” suavemente envolveu o ambiente.
Ainda agitada pelo que deixei lá fora, tentei procurar um papel que me explicasse o que estava acontecendo, busquei um lugar para enxergar melhor, me inquietei, peguei a câmera, mas, vi o aviso que não é permitido fotografar. A minha agitação destoou do ambiente.


Uma luz, mais suave ainda do que a música, se é que era possível, iluminou a coroa do menino Jesus. Deitado na manjedoura, sem roupa, entre Maria e José, o menino foi inundado por ela, sua coroa brilhou sozinha, e o resto - penumbra.


A luz iluminou em sequência: Maria, José, e os 3 querubins que, dispostos em sutil triângulo abrigavam a Sagrada Família.





No mesmo compasso, música e luz, se espalharam pelos anjos vestidos de seda em rosa, azul, amarelo, que dispostos em espiral se espalham pelo imenso pinheiro até a estrela do topo. Se, se desprendessem dali e subissem aos céus em grande revoada não causariam espanto. Quase pedi que me levassem junto.





Cada anjo, e são 50, foi iluminado por uma pequena vela que conferiu a seu rosto, de terracota, feições quase humanas.






Outro foco surgiu no pé da árvore e, Balthazar, Melchior e Gaspar, que souberam ler a mensagem da estrela e a seguiram como que caminham em direção à cena principal. Pouco a pouco, a cidade ao redor se coloca me movimento, sai a fornada da padaria, o sapateiro bate a sola, a ovelha pasta. Tudo é vivo novamente.




Quanto tempo dura a eternidade? Acho que uns 10 minutos no máximo.



As palmas me tiraram do sonho.


Ainda perplexa tentei entender o que era este espetáculo. Não sei ficar só na emoção.


Descubro então num folheto o mistério.


Os anjos e o presépio foram uma doação para o museu de Loretta Hines Howard Fund. Loretta Hines Howard iniciou em 1925 uma coleção de figuras de presépio napolitano do século 18, e montava-o em sua casa assim como está hoje no museu – ao redor da árvore de Natal.


Em 1957, ela apresentou pela primeira vez sua coleção no Metropolitan. Desde 1964 a coleção vem crescendo, atualmente são mais de 200 peças e, há mais de 40 anos ela é exibida no mês de dezembro como parte das comemorações de Natal do museu e da cidade.


Como se faz em família, Linn Howard, filha de Loretta ajudava sua mãe a montar a exposição e, após a morte da sua mãe em 1982, ela manteve a tradição com sua filha, Andrea Selby.
A cada ano elas criam novas ambientações para as figuras que vão sendo adquiridas, a coleção não para de crescer.


A ambientação é típica dos presépios napolitanos com os três personagens marcantes: a Sagrada Família cercada pelos animais e adornada por um templo romano - para mostrar a força da igreja católica sobre os símbolos pagãos -, os Reis Magos vindos do oriente com vestimentas exuberantes e exóticas, e as pessoas comuns da cidade e do campo ocupadas nas suas atividades diárias.


Fiquei ali, passeando no “walk in closet”, espiando minhas caixas, sacos de tecidos, capas cobrindo cabides, tinha muito para ver e lembrar.




Thank you, Mrs. Howard, pela beleza da coleção e pela grandeza do gesto de dividir o prazer de ter colecionado.






segunda-feira, 17 de outubro de 2011

De como uma manhã pode começar




O jornal, alimento mais perecível da mesa do café da manhã, me lê uma crônica do Joaquim Ferreira dos Santos, que começa assim:


“Quando a vida está nublada e o aeroporto da existência parece que nunca mais vai abrir para nova decolagem, é aí que eu toco a campainha do Ithay, o edifício art-déco na Nossa Senhora de Copacabana. Peço ao porteiro para me deixar pisar no mosaico de cerâmica que imita no hall as ondas do mar de dois quarteirões adiante, o fabuloso verde-azul do mar da praia de Copacabana.
Há quem tome pílulas, há quem tatue felicidade no pulso direito. Quando estou perdido, meio sem saber por onde ir, eu busco me redirecionar com a bússola que me guia os passos, a beleza da cidade onde eu nasci e que não me canso de percorrer.”.


E a crônica segue com um passeio por Copacabana, mais especificamente pelo Lido, que vai da Princesa Isabel até a Rodolfo Dantas, onde ali no número 111, por trás do portão de ferro altíssimo a vida se passou entre nublada e ensolarada.

Gostei deste começo de crônica e fiquei a pensar: Quando a vida está n ublada e o aeroporto da existência parece que nunca mais vai abrir para nova decolagem é aí que eu:

- ouço no Ipod Toada do Boca Livre e subo a serra de Petrópolis em direção a Araras.



- abro Apontamentos de História Sobrenatural do Mário Quintana e leio na página 92:



Os grilos .. os grilos .. Meu Deus, se a gente
Pudesse
Puxar
Por uma
Perna
Um só
Grilo,
Se desfiariam todas as estrelas!



- vou à geladeira e com a porta aberta dou uma “mamadinha” na lata de Leite Moça.


- troco a música por “Doe eyes” de As pontes de Madison e sonho com alguém batendo a porta suavemente.

- abro a caixa rosa com as cartas e cartões das minhas amigas recebidos nos primeiros anos em que me mudei de cidade e leio uma por uma pela milionésima vez.

- abro a outra caixa, a azul, com os cartões e desenhos dos filhos quando pequenos e leio de novo as letrinhas tortas.

- molho o pincel num azul profundo da caixa de aquarela e desenho céu e mar sem fim, até o azul desaparecer no branco da folha.


- caminho na praia, pisando a ”areia branca que seus pés irão tocar”.

- entro no chuveiro para que a água caia e se junte às lágrimas lavando o corpo inteiro.

- abro o armário, qualquer um, e num transe, esvazio prateleiras, passo pano, jogo no lixo, descubro uma peça esquecida e assim “limpada” de tralhas velhas fico leve.


- troco de novo a música agora é: “Maria era uma boa moça, prá turma lá do Gantois...” e sinto o frio da madrugada nas minhas costas, meu cabelo despenteado, a camisola rosa e o grande, enorme, iluminado sorriso do meu pai abrindo a porta de casa, no verão, para a turma da serenata entrar.

- quero ligar 2542-2786, mas a voz que quero ouvir não me atenderá.

- ligo para as primas só para escutar: Oiiiiiiiiiiiiiiiii, olááááááá´, fala prima, dependendo do número escolhido.

Talvez faça muito mais do que isto, mas será sempre a variação destas coisas que me fazem colocar a bússola no mesmo lugar: o da criança, mulher desejada, filha, amiga, desvairada, inconstante, equilibrada, amada, e que me me asseguram que o aeroporto só está fechado momentaneamente.


Mesmo que o momento dure mais do que se possa aguentar,




um pouquinho de melancolia é bom.




































segunda-feira, 3 de outubro de 2011

As Rosas não falam






As rosas não falam,
As primas falam
As rosas tem perfume
As primas, colo
As rosas tem espinhos
As primas, verdades
As rosas enfeitam
As primas completam
As rosas precisam ser cultivadas
As primas também
As rosas murcham e morrem
As primas permanecem

Correios em greve: não entregam flores.
Envio eu uma rosa colhida na Provence para aquelas que falam a língua do afeto.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Pergunta 1




Ao visitante 51779, que será o próximo a ver pela primeira vez este post.




Será que você tem alguma resposta? Ou outra pergunta?



Por que os imensos aviões
não passeiam com seus filhos?





Qual é o pássaro amarelo
que enche o ninho de limões?


Por que não ensinam a tirar
mel do sol aos helicópteros?




Onde deixou a lua cheia
seu noturno saco de farinha


segunda-feira, 11 de julho de 2011

Como comemorar as mais de 5000 vezes que o Sótão e o Porão já foram visitados?



Não se entra nestes lugares sem aquela curiosidade que matou o gato: “o que tem aí?” se nos agrada ou não o que encontramos, depende.








O presente que você vai encontrar aqui no Sótão e no Porão cada vez que der uma espiadinha será, entre outras coisas, uma pergunta.

Pode levar para casa, pode deixar sua resposta, pode propor outra pergunta.




Passamos a vida a perguntar, mas variamos muito pouco as perguntas. E por isto as respostas também tendem a serem as mesmas.



A sensação de tédio que acompanha esta estagnação nos invade como um cinza gelado que desbota a cor dos olhos, apaga o sorriso e transborda a alma.
Os gregos iam ao Oráculo de Delphos e a Pitonisa em transe fazia profecias.




O Oráculo, porém advertia: “Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”. Mas o homem não acreditou e continuou indo aos bruxos, magos, sábios, psicanalistas, sempre com perguntas - as mesmas.

Existem homens que fazem perguntas diferentes ao invés de darem respostas iguais, mas a estes homens, pouco ouvido se dá, os chamam de loucos, ou pior ainda: de poetas.

Um poeta é a salvação para muitas coisas. Um poeta que faz perguntas é de mais valia ainda.




Neruda, menino/poeta, deixou um livro com 74 versos de puro encantamento. Pergunta o mesmo, ao contrário, ao avesso, de cima para baixo, de baixo para cima, da esquerda para a direita, vice-versa, através, perto de mais, longe de mais.

E como o livro não tem ordem, ou melhor tem, mas não há porque segui-la, vou começar pelo verso XXXII, o verso em que o poeta se apresenta:

Há algo mais tolo na vida
que chamar-se Pablo Neruda?

Há no céu da Colômbia
um colecionador de nuvens?

Por que sempre se fazem em Londres
os congressos de guarda-chuvas?

Sangue cor de amaranto
tinha a rainha de Sabá?
Quando Baudelaire chorava
chorava com lágrimas negras?


*o livro guardado aqui é o da L&PM edição de 2007, com tradução de Olga Savary, mas tem uma edição da Cosac Naify, também de 2007, lindamente ilustrada por Isidro Ferrer e tradução de Ferreira Gullar