quinta-feira, 7 de julho de 2011

O rio é uma gota

Quando você está à margem de um rio, tudo passa, só você fica.




O rio não tem consciência de si mesmo.





São gotas de água aos milhares, aos milhões, que juntas correm sem pensar. Cada uma se percebe como o rio inteiro.






Só você – à margem- as vê como gotas, e isto é muito.

terça-feira, 21 de junho de 2011

De lembranças e pássaros







O Sótão e o Porão guardam coisas raras e preciosas.



Há sempre uma caixa cuidadosamente limpa e espanada com freqüência onde ficam a solidariedade e a amizade. Está sempre na frente, à mão, e constantemente tem que ser substituída por uma maior, pois, quanto mais se usa a solidariedade e se desfruta da amizade, mais elas crescem ocupando lugares ociosos que, por algum descuido, podem sorrateiramente serem surrupiados, por artigos menos nobres, mas humanos também.




As Traças por vezes barulhentas, por vezes falastronas, quando solidárias se calam num silêncio respeitoso. Ficam por perto, observam, oferecem algo e partem.



Assim também é a poesia. Não nos procura, ou melhor, nos procura sem que saibamos, e quando a encontramos nos lê de tal forma que nos coloca em grande silêncio – aquele dos entendimentos profundos.





Quando a poesia encontra a natureza, ou vice-versa, os silêncios são grandes, as imagens sutis e o resultado é o nosso alumbramento diante da simplicidade.





Ninguém melhor do que Manoel de Barros para esta mistura e esta singeleza; grande mestre de palavras simples, conta uma história de irmãos que me fez pensar em oferecê-la a uma grande amiga.





ÁRVORE


Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.


Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.


No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de


sol de céu e de lua mais do que na escola.



No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo



mais do que os padres lhes ensinavam no internato.



Aprendeu com a natureza o perfume de Deus



seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul



E descobriu que uma casa vazia de cigarra esquecida



no tronco das árvores só serve pra poesia.



No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas.



Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara,


envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos


e tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos brejos.


Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore


porque fez amizade com muitas borboletas."


Manoel de Barros

Ensaios Fotográficos

Poesia Completa

Leya, 2010


Claudia, escolha uma árvore que possa acolher as lembranças.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Mãos soltas, almas, não!





Um homem nasceu.
Nascemos todos mais uma vez.

Um homem morreu.
Morremos todos um pouco.

Seus dons ficaram espalhados por todos que estavam à sua volta.






Alguém fala ao longe: sairá da minha vida pelo mesmo lugar que entrou - A porta da frente da minha casa!







Busco mais uma vez em Borges, a universalidade da poesia. Esta caiu nas minhas mãos ontem. Não à toa.

Os dons

Foi-lhe ofertada a música invisível
que é um dom do tempo e que no tempo cessa;
foi-lhe ofertada a trágica beleza,
foi-lhe ofertado o amor, coisa terrível.

Foi-lhe ofertado saber quem em meio às belas
mulheres deste mundo há apenas uma;
pôde uma tarde descobrir a lua
e com a lua a álgebra das estrelas.

Foi-lhe ofertada a infâmia. Docilmente
ele estudou as infrações da espada,
a ruína de Cartago, a apertada
batalha do Oriente com o Poente.

Foi-lhe ofertada a língua, essa mentira,
foi-lhe ofertada a carne, que é argila,
foi-lhe ofertada o obsceno pesadelo
e na vidraça o outro, o que nos mira.

Dos livros que o tempo acumulou
foram-lhe concedidas poucas folhas;
de Eléia, paradoxos comedidos,
que o desgaste do tempo não gastou.
O altivo sangue do amor humano
(a imagem é de um grego) lhe foi dado
por Esse cujo nome é uma espada
e que recita as letras para a mão.

Mais coisas lhe ofertaram, com seus nomes:
o cubo e a pirâmide e a esfera,
a inumerável areia, e a madeira
e um corpo para andar em meio aos homens.

Foi digno do sabor de cada dia;
eis tua história, que é também a minha.


Atlas,
trad. Heloisa Jahn
Companhia das Letras

Cecília, para você que gosta tanto de andar por aqui.




sábado, 18 de junho de 2011

Tem alguém aï?











Nunca pensei que tivesse alguém tomando deste lugar, mas tenho ouvido com alguma freqüência que o lugar está abandonado.

Nem sempre dá para vir até aqui, mas parece que algumas pessoas gostam de dar uma passadinha e se ressentem quando não acham nada novo, acham que o dono não está dando a atenção adequada.










Existe um tempo em que é quase uma necessidade revirar as lembranças, outro tempo em que se gasta fabricando lembranças que um dia serão lembradas e há um tempo ainda em que se gasta procurando uma lembrança que não vivemos, mas que daríamos tudo para ter vivido.

Para estas últimas recorro a um dos poemas mais lindos de Borges, escolha pessoal e intransferível.





Elegia da Lembrança Impossível

O que não daria eu pela memória
De uma rua de terra com baixos taipais
E de um alto ginete enchendo a alba
(Com o poncho grande e coçado)
Num dos dias da planície,
Num dia sem data.
O que não daria eu pela memória
Da minha mãe a olhar a manhã
Na fazenda de Santa Irene,
Sem saber que o seu nome ia ser Borges,
O que não daria eu pela memória
De ter lutado em Cepeda
E de ter visto Estanislao del Campo
Saudando a primeira bala
Com a alegria da coragem.
O que não daria eu pela memória
Dos barcos de Hengisto,
Zarpando do areal da Dinamarca
Para devastar uma ilha
Que ainda não era a Inglaterra.
O que não daria eu pela memória
(Tive-a e já a perdi)
De uma tela de ouro de Turner,
Tão vasta como a música.
O que não daria eu pela memória
De ter sido um ouvinte daquele Sócrates
Que, na tarde da cicuta,
Examinou serenamente o problema
Da imortalidade,
Alternando os mitos e as razões
Enquanto a morte azul ia subindo
Dos seus pés já tão frios.
O que não daria eu pela memória
De que tu me dissesses que me amavas
E de não ter dormido até à aurora,
Dissoluto e feliz.

Tradução de Fernando Pinto do Amaral


Obrigada pela saudade que nem sabia que estavam sentindo.





quinta-feira, 31 de março de 2011

Este é um comentário que vem copiado aqui. É quase como se fosse a continuação do texto do Ninho Vazio. Um dos integrantes do ninho falou: E que ninho aconchegante, viu! Muito obrigado, mãe, por manter nosso ninho sempre limpinho e tinindo!!!! Mil beijos!Nando Para todo o resto existe Mastercard.

domingo, 27 de março de 2011

Ninho Vazio


Eu não vivo sem o Google, alguém vive?


Custa relativamente barato: um computador, uma conexão rápida e lá vamos nós, horas e horas de viagem.


Ontem o Google não me foi de grande ajuda.


Fui procurar “O que fazer com o Ninho Vazio”, apareceram 271.000 resultados, mas não havia uma resposta específica.


Não estando no Google, não tive outro jeito que o de me virar com o que tinha.


Tirei o ninho de dentro do armário para ver em que situação se encontrava. Não estava de todo mal. Já há algum tempo atrás tinha dado uma boa limpeza, costurado umas palinhas que se tinham rompido, refeito o assoalho para que ficasse firme caso precisasse colocar algo lá dentro. Limpei bem a poeira, tentei arejar na janela, mas o vento forte impediu.


Aliás, se há coisa frágil é Ninho Vazio. Todo o cuidado é pouco, qualquer movimento brusco, ele voa, cai se despedaça, se rompe.


Também não pode ser guardado em qualquer lugar, o fundo do armário é o pior de todos, cria mofo, desaparece atrás de outras coisas, na maior parte das vezes atrás de lindas caixas cheias de desculpas perfeitas. De mais fácil acesso, estão sempre ao alcance da mão para serem usadas.


E assim, empurrado cada vez mais para trás, quando queremos mexer nele precisamos de algumas mãos para tirá-lo do lugar, ou pelo menos para segurar a escada enquanto subimos com medo de cair.


Pois muito bem, Coelhinho da Páscoa não existe, faltam quatro semanas para Páscoa, já é primavera, e as temperaturas teimam em não subir, mas o domingo amanheceu por aqui com o ninho limpo, tinindo de bonito, cheio de ovos de Páscoa.




Ninho Cheio, Ninho Vazio, isto não está no Google.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Luares

Admiro os colecionadores. Passar a vida atrás de algo demanda esforço, disciplina e às vezes muito dinheiro.

Lembro sempre do José Mindlin contando como formou sua biblioteca, sonho em conhecer, ou as casas de Neruda com suas coleções malucas, mas uma especialmente interessante – sereias, ou figuras femininas que iam na proa dos navios para afastar os monstros marítimos, ou de ir ao Museu Nissim – Camondo em Paris, onde Monsieur Camondo decorou sua casa com móveis e objetos decorativos franceses do século XVIII e levou mais ou menos 20 anos para juntar duas cômodas francesas, idênticas, decoradas com placas de porcelanas de Sèvres. Mr. Frick em New York colecionou arte, da boa, e acordava no meio da madrugada para admirá-las em silêncio. Graças a seu espírito de mecenas podemos sentar na mesma sala e mergulhar naquela beleza.

Algumas coleções não custam nada, são conchinhas do mar, tubinhos de areia, folhas secas, que à medida que cruzam o caminho estende-se a mão e pega-se.

Não sei se a lua cheia desta semana está influenciando os espíritos, mas lendo a resenha de um livro no jornal, imaginei que o autor colecionava luares.

Este foi meu jeito romântico de entender o assunto do livro.

O título: Nocturne: A Journey in Search of Moonlight.

O autor, James Attlee, num passeio à noite na costa da Inglaterra viu-se de repente tomado pela imagem da lua nascendo, em suas palavras: “the rim of the harvest moon emerging from the sea, a monstrous, swollen aparition.”.

Como acontece com todos aqueles que, tocados por um acontecimento extraordinário, neste caso a lua, ou melhor, o luar, tudo passou a ter outra dimensão na vida de Attlee.

Começou pela observação do luar a partir do seu quintal, da sua rua da sua cidade e assim foi começando sua coleção. Mas as luzes das grandes cidades lhe roubavam os melhores momentos, e como numa grande coincidência, lhe caiu nas mãos um telescópio; depois uma ida a uma instalação de arte, onde o artista mostrava o resultado da transformação de notas da Sonata Moonlight de Beethoven em código Morse, que eram enviadas para a lua e, ao tocarem a superfície lunar eram de novo reenviadas para a terra. Transformadas pela viagem se convertiam em notas novamente. Para Attlee este som é mais adequado aos ouvidos do século XXI. Eu e o crítico discordamos, mas isto não invalida a coleção.

Attlee vai levando os leitores por passeios intermináveis em busca de luares: no Japão, no Arizona, nas observações sobre o luar de Goethe em Nápoles e de Dickens no Vesúvio, nas telas de Whistler onde o pintor, na série "Noturnos", usava tantas tintas e tantas cores tão diluídas para chegar na “luz” desejada que a tela precisava ser pintada deitada no chão para não escorrer.

Fiquei com vontade de procurar a minha coleção de luares, sim devo ter uma.
Como é algo que não dá para pegar e guardar numa caixa, numa gaveta ou numa pasta, vou ao Sótão e lá acharei com certeza.

E lá estavam...

O luar que iluminava, mas não vencia a noite em que tive a notícia mais triste da minha vida.

Aquele luar que iluminando uma pedrinha mínima no chão me fez levantar a cabeça para procurar de onde vinha a luz e me fez ouvir:
a lua nasce por detrás daquela mata
até parece um sol de prata
prateando a escuridão.
Para fazer uma música desta precisa ter Paixão no nome.

Também apareceu aquele da noite fria de inverno, noite de Santo Antônio, onde um olhar “acendia a fogueira no meu coração”.

Aquele luar de uma serenata: “A lua é um tiro ao alvo e as estrelas, bala e bala”.

E foram muitos e tantos que a sala antes escura agora brilha calma e prateada. Beethoven bem baixinho me ajuda a sonhar.

P.S. Este post vai sem foto, para que cada um se sinta tomado pelo seu luar.