sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Meu Vestido Xadrezinho


O texto do Vestido da Narizinho está mexendo em cada sótão maravilhoso.

Minha querida amiga Suzy me mandou este "Vestido Xadrezinho".

Procurei nas fotos e papéis do sótão alguma coisa para ilustrar o texto, mas pensei: - "Por mais que eu procure nunca será igual ao dela."

Achei este molde antigo para publicar mas me pergunto: "Este vestido foi mesmo feito de tecido e a partir de um molde de papel?"

Deixo para vocês a resposta, se é que tem.





Um vestido simples? Ou simplesmente um vestido?!!
Era tão lindo!
Para meus seis anos? Ou seria menos? Também não sei, não importa.
Ainda hoje não consigo defini-lo, mas o dia lembro bem.
Naquele dia não tive muito a atenção da minha mãe. Muito atarefada entre tesouras, moldes, linhas, alinhavos, botões, máquina de costura. Não percebia o que sairia dali. Era um dia qualquer.
Reclamei um pouco, mas meus afazeres me chamavam: dar comida às bonecas, dar banho, botá-las para dormir e subir em árvores com meus irmãos.
Ao me colocar para dormir, minha mãe compensou toda a falta de atenção que eu reclamei contando minha história preferida: Cinderela; mas antes da parte do vestido, cansada, adormeci.
No dia seguinte ao acordar, me esperava nas costas do sofá da sala um lindo vestido: de chita, xadrezinho azul e branco, bem passado e engomadinho. Ao lado dele minha bonequinha vestia um igualzinho.
Nunca esqueci esta surpresa e carinho que só mãe sabe dar.
Não consigo definir se foi simplesmente um vestido.
Guardo nele a grande alegria de uma simples criança que ainda mora aqui dentro.


Suzy, embalada pelas histórias da carochinha dentro de um sótão cheio de aranhas doces.
Ithaca 18/08/2010

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Perigo no Porão - A Inveja

Preciso ir ao porão.

Quero encontrar pistas de quem foi lá e deixou escapar uma criatura poderosa.

Falo da Inveja!

Traças e Cupins comeram o armário que a tinha trancado? Como sou boba! Não percebi então que o armário de madeira era frágil e não iria segurá-la por muito tempo?

Então fui eu mesma?!?!?

De tempos em tempos examinei detalhadamente a madeira para procurar pozinho de cupim, sinal de madeira podre, verificando ainda se a porta estava trancada para me assegurar que desta vez seria diferente. A vigilância severa me colocaria a salvo: sabia onde ela estava e durante muito tempo fiquei de guarda.

Até que achei que isto estava me tomando muito tempo e energia. Encostei o armário no fundo e espacei o controle.

Não sei se na última arrumação não percebi o perigo ou não avaliei bem aquele pozinho no chão, prova concreta de um buraquinho na madeira, o fato é que ela escapuliu e me pegou.

Mas foi rápido.
Percebi logo quem era e não precisei gastar muita energia – tranquei-a num armário de ferro que tinha chegado lá a pedido de uma amiga muito, muito querida que não tinha onde colocá-lo.

Às vezes os amigos são assim, uns seres estranhos.

Pedem umas coisas sem sentido, nos dão coisas que parecem tralhas inúteis, nos levam ao porão quando precisamos, ou vão conosco quando não temos coragem de irmos sozinhos, e mais estranhos ainda: fazem isto quando poderiam desfrutar só do Sótão.

Ainda bem que o armário estava lá!

Quem tem padrinho não morre pagão

Todo mundo tem uma madrinha ou um padrinho neste mundo.

Vão aparecendo aos poucos na nossa vida: batismo, consagração, crisma, casamento. Tem uma função definida, são mais ou menos presentes, e para alcançar este posto, seguimos – padrinhos madrinhas e afilhados, rituais definidos.

Se a vida fosse feita de rituais definidos seria tão simples, chato, é verdade, mas tão menos trabalhoso! Era só abrir o caderninho e procurar a fala do momento, quem segura quem no colo, quem jura proteção eterna, presença constante e estas coisas todas.

E as surpresas? Abriríamos mão delas? E os que nos surpreendem no meio do caminho da vida? Aqueles que não leram o texto, ou leram e resolveram que não iriam cumprir o que estava escrito?

Aqui no sótão aparecem os padrinhos de coração.

Socorro Traças! Assim que arrumar outra expressão eu aviso, e vocês tratem de carregar este clichezinho barato para o porão e dar cabo dele.


Valeu Prima Maria Amélia por ter compartilhado o texto com outras pessoas com tanto carinho.



Obrigada, Mamélia, pela crônica da Martha. Através dela consegui me transportar à infância de muitas lembranças. Foi um momento mágico.Beijo. Norma.

Adorei ler este artigo que me é tão familiar, pois tb sou de Rio Grande e fiz parte desta época dourada!!!!!!!!!!!!!!!!! Anônimo (mande seu nome)

Não gostei. Deu tristeza. Acho que nunca vai aparecer uma confeitaria que se iguale à Sol de Ouro e a Nogueira, de Pelotas. Buáááá! Dinei
De fino trato e bom gosto. Amei este pedacinho do sótão. Maria de Lourdes (Chuca)

Uma bela recordação Maria Amélia! Como morei também em Pelotas, me recordo da confeitaria Nogueira, quando lá estive a pouco tempo,já não existia mais.
Ainda me lembro da rosca de massa de ló coberta com açúcar de confeiteiro, tenho guardado na mente aquela pilha delas colocadas harmoniosamente na vitrina. Outra coisa que ainda me dá saudade é do açúcar "cande" vendido na frente do cine Carlos Gomes. Jonatas

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

As Aranhas e outros bichos

Os bichos estão soltos por aqui hoje.
Primeiro as traças e cupins, depois as formigas e agora as aranhas e os piolhos.

As Aranhas

Alguns reclamaram que as Aranhas ficaram de fora da lembrança.

São uns doces feitos de finas tiras de côco, quase transparentes, cozidas rapidamente numa calda grossa e arrumadas em montinhos com uns confeitos de bolinhas coloridas ou prateadas colocados por cima.

Esta explicação "técnica" tira toda a graça do doce, quem o conheceu não precisa dela e quem não conheceu também não precisa porque não conseguir sentir o prazer que ela desperta.
Levá-lo a boca, morder a tira, "al dente", do côco, apertá-la contra o céu da boca para soltar o açúcar e ..... ficar só com a delícia do côco....

Era assim que eu comia, e vocês?

Os Piolhos
Há uma expressão chamada "piolho na costura", alguém conhece?
É aquele que pela primeira vez aparece na vida da gente materializado sob a forma de irmão.
Pois é, o piolho, irmão da traça, disse que o Sol de Ouro era uma mistura de França e Espanha e não de França e Portugal como eu mencionei.
Bem está feita a ressalva, mas é por estas e outras que fiz outro blog http://www.manamano.wordpress.com/ para discutir relacionamento entre irmãos, que desde Caim e Abel, sabe como é que é...
Beijinho piolho na costura, continue fazendo suas ressalvas que publicarei.

As formigas

As formigas desta vez tomaram conta do sótão. Mas tem algumas que são muito tímidas e não comentaram aqui no espaço, mas as Traças, que não são fáceis foram atrás, descobriram seus formigueiros e de lá trouxeram seus comentários.
As lembranças foram tão doces que merecem ser comentadas aqui:


O SOL DE OURO É UMA DAS MAIS FORTES BOAS LEMBRANÇAS DA JUVENTUDE DE MUITAS GERAÇÕES COMO A MINHA. POUCOS LUGARES MARCARAM TANTO UMA ÉPOCA NO RIO GRANDE. QUE SAUDADES!
MARIA CARMEM


BELEZA ! EMOCIONANTE .
PAULO EDISON

Nossa que delicia Martha!! Comi tudo , com os olhos nas tuas palavras no sabor que me vi mordendo aqueles que foram os meu doces de infância também.Nao se sei de gulosa comi tudo nao sobrou nenhum para contar a historia, mas senti falta das "aranhas" aquela especialidade que me encantava pela sua forma delicada e saborosa. Nunca mais vi nada igual. Eram do mais puro côco e demoravam a se desmanchar.Parabens Martinha tudo lindo! Voltei la no passado! Uma viajem rapida mas gostosa, ainda segui um pouco mais e fui ate a "Casa Couto' onde ganhávamos as famosas" linguas de gato" e aqueles pingos de chocolate com confeitos coloridos.Ah coisa boa reviver e ter muito para contar! Somos previlegiadas por termos em nossas "prateleiras do sotao" tantas lembranças boas!Beijos suzy=

sábado, 14 de agosto de 2010

Amanhã é domingo

Descobri no sótão algumas lembranças de domingos que não gostaria que as traças e os cupins se fartassem. São boas demais para serem esquecidas.

Deliciem-se, afinal de contas, amanhã é domingo....



Tinha um ritual na minha infância que seguíamos à risca: COMPRAR DOCES NA CONFEITARIA APÓS A MISSA DE DOMINGO.

Comprávamos para a sobremesa do almoço ou para o café da tarde depois da sesta.

A Confeitaria, chamava-se Sol de Ouro, lembrava confeitarias européias, muita madeira, vitrines grandes de vidro e reluzentes metais.
Os doces eram espetaculares, mistos de pâtisserie francesa com portuguesa, faziam com que a nossa boca enchesse de água só de pensar em ir até lá.

Qualquer almoço ou chá da tarde era logo elevado à categoria de “acontecimento” se a dona da casa anunciasse:
- Estive muito atarefada para fazer as sobremesas e comprei uns doces no Sol de Ouro.

Pronto, era o suficiente para tudo o que já tínhamos comido virar lembrança.

Que viessem logo!

Nas prateleiras, como instrumentos de uma orquestra, os doces cuidadosamente arrumados se apresentavam para o concerto diário.

Na primeira fila, as Cordas, os doces de ovos, com muitas, muitas gemas.

O Quindim era o primeiro violino: o “spalla”.

Para sorte de todos, ao contrário do que acontece em uma orquestra, eram muitos os “spallas” nas prateleiras. Desconfio que fossem eles a inspiração do nome da loja.

A transparência quase etérea da parte de cima apoiava-se no côco da parte de baixo. Eram sóis amarelo-brilhante cuidadosamente disposto em forminhas prateadas.

As outras Cordas, Violas, Violoncelos, Contrabaixos, estavam ali nos Bom-bocados, Queijadinhas de crosta crocante, Toucinhos dos Céu.
A Harpa? Os Papos de Anjo, claro, imersos em delicada calda doce.

As massas folhadas, tão leves, não resistiam ao Sopro das Flautas, Oboés e Clarinetes.

As Madrilenas - pequenos discos de massa folhada recheados de doce de leite, as Mil Folhas e os Biscoitos Champagne esperavam o momento de se dissolverem no ar e na boca.

Havia também alguns docinhos, que tais como os instrumentos de Percussão mais comuns – Triângulos e Pratos pareciam estar por ali só compondo o conjunto.

Engano. Puro engano.

Eram esferas tão perfeitas que o comum se transformava em encanto.

Os Camafeus com nozes escolhidas a dedo, os Olhos de Sogra – com as ameixas todas do mesmo tamanho, os Caramelados, as Trouxinhas de Nozes, todos tinham uma versão mais grosseira em outras confeitarias, mas ali, não. Ali, a delicadeza reinava.

Esta orquestra de açúcar guardava, como em tudo neste mundo, seus contrastes, e não tardava a mostrar ao lado de toda esta delicadeza - o vigor dos Bumbos e das Caixas.

As e-nor-mes Bombas de Chocolate e Creme que, junto aos Merengões recheados de doce de leite e doce de ovos tinham, na boca, o mesmo poder destes instrumentos – ao comê-los tudo em volta parava, principalmente pela dificuldade da tarefa, difícil com as mãos, pior ainda de garfo e faca.

Uma Sinfônica que se preze não pode abrir mão das Teclas: Piano e Cravo.

Ao contrário da maioria dos outros instrumentos, para tocá-los é indispensável que o músico esteja sentado, ou alguém já ouviu Chopin tocado de pé?

Para comer estes doces, devia-se estar sentado e concentrado.

Doces feitos de um pão-de-ló tão fino e macio que ao tocar o céu da boca desmanchava-se e misturava-se ao recheio - ora um doce de leite, ora um doce de ovos - os olhos se fechavam e suspiros suaves enchiam os espíritos. Eram Bem-casados, Casados em pé, Ratinhos, todos cobertos com uma fina camada de fondant e cuidadosamente decorados com caramelos, chocolates e doce de ovos.

E era meu pai, o maestro da doçura, que aos domingos, de mãos dadas comigo, escolhia os sabores e compunha a sinfonia.

Com uma batuta imaginária ele determinava quais doces pulariam das prateleiras de vidro para a caixa de papelão. Mais tarde ao redor da mesa os apreciaríamos com calma, mas com quase nenhuma parcimônia.

No meio daquela pequena agitação de cidade do interior eu esperava por uma frase.

Tão doce quanto qualquer um daqueles doces embalados, tão carinhosamente pronunciada quanto o carinho que o laço era dado na fita, e acompanhada de um piscar cúmplice de olhos:

- Para a minha filha, a senhora embrulhe 200 gr. de Estrelinhas e Casadinhos
[1], por favor.

Domingos de antigamente, domingos de toda a vida.

[1] Estrelinhas, um biscoito amanteigado coberto com uma fina camada de um caramelo "puxa" com o desenho de uma estrela num fio de caramelo queimado e Casadinhos, dois biscoitos amanteigados recheados com doce de leite e cobertos com fina camada de açúcar de confeiteiro.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Arrumação no Sótão e no Porão




Resolvi dar uma arrumada no sótão e no porão.

Estava tudo muito misturado. Mesmo nos guardados há que manter certa ordem.

No Sótão guardarei todas as lembranças boas. Dei uma arejada, pedi a um mestre de obras que abrisse uma janela na frente norte para o sol entrar com força no inverno menos inclemente no verão.

Remanejei para o sótão as melhores lembranças, as que quero preservar



mas ainda estou pensando quais serão os melhores lugares - de novo esta mania – mas o que posso fazer se me alegro quando procuro e acho?
Comove-me ver a delicadeza e o cuidado com que as coisas foram guardadas, mesmo que não tenham sido por mim. O tempo parou naquele objeto esperando meu desejo e minha lembrança.

- A flecha do tempo é para frente, dirão alguns, não podemos mudar sua direção.
- Tudo bem, digo eu, mas o que é o arco? E a corda? Sem falar no arqueiro. É esta combinação que faz a flecha zunir em direção ao futuro.


No Porão não tive a mesma preocupação, talvez por estar um pouco cansada da arrumação, deixei as coisas como estavam.



O cansaço me fez perguntar: - Por que tudo tem que estar sempre nos trinques?
Um pouco de descaso também não faz mal.

Deixei lá definitivamente o que não quero mais ver, encostei tudo no fundo da peça que é para não precisar nem entrar.

É só jogar lá dentro e deixar as Traças e os Cupins de guardiões. Percebi até um sorriso de satisfação nos olhos deles. Vão poder trabalhar pela eternidade sem serem incomodados, estarão a salvo da luz, do calor, do ar fresco da manhã, do pano úmido, da vassoura.

Parece coisa de doido? Não é não. Há muita gente neste mundo que escolhe a companhia das traças e dos cupins que corroem tudo que encontram pela frente à do sol que ajuda a gerar transformação.
Aqui tem sempre um lugar para as suas coisas, não esqueça